quarta-feira, 3 de maio de 2017

Tal é a admiração e o orgulho por ser um dos nossos!...


Não seremos nós a acabar com a carreira de Ronaldo, será ele a acabar connosco

Não sendo outro, Ronaldo parece outro, outra vez. Golos, títulos individuais e coletivos, e a ideia de que ele poderá ser eterno é cada vez mais provável

«Não sei a velocidade e a intensidade a que funciona o cérebro de Cristiano Ronaldo, mas é natural que seja muito mais rápido e melhor direccionado do que o meu. Sei do que falo. Demoro-me a articular vocalmente, por vezes gaguejo, e tenho de ser constantemente lembrado de que o caminho é para a esquerda e não para a direita quando vou na estrada.

Ronaldo, não.

Ronaldo resolve a vidinha dele em nanosegundos, acerta em cheio no que faz, e sabe para onde vai mesmo que isso implique ajustes na direcção.

Por outro lado, não sei de que matéria é feito Cristiano Ronaldo, mas é provável que os seus músculos, fibras e ossos sobrevivam aos meus muito além daquilo que a nossa diferença de idades (32 e 37) faz supor. Uma vez mais, sei do que falo, e os meus joelhos também.

E esta dialéctica do “Eu contra Ronaldo” podia prosseguir, eu a sentir-me cada vez mais distante dele e ele a borrifar-se para tudo isto, portanto encerro-a com a maior diferença que encontro entre os dois: a confiança.

Ou melhor, a autoconfiança, e aqui acho que não estou sozinho. Só um tipo mentalmente inquebrável se manteria impassível quando é assobiado, gozado, provocado e criticado. Constantemente assobiado, gozado, provocado e criticado.

Acontece que Ronaldo não é um homem como nós, porque os génios não são como nós.

Ele derrubou as convenções impostas pelo lugar, bairro, cidade, ilha e país onde nasceu, sobreviveu à fase do menino-prodígio, que esmaga os talentos mais deslumbrados, e construiu-se como um dos melhores futebolistas do mundo.

Depois, duas Bolas de Ouro depois, Ronaldo ultrapassou uma lesão crónica e os limites do razoável com títulos e distinções individuais - entre as quais, outras duas Bolas de Ouro - quando os que escrevem, como eu, se armaram em tarólogos, imaginando um futuro sem ele.

Só que ele continuou a marcar muito, mais do que alguns grandes clubes, e a ganhar coisas, e nós deixámos a coisa passar entre os intervalos da chuva – como se não lhe tivéssemos prognosticado o fim após o Mundial de 2014.

Não são curiosidades, são factos: há apenas 22 equipas com mais golos do que ele na Champions e o Atlético de Madrid é umas das que têm menos. Ronaldo tem 400 golos pelo Real, 281 na Liga, 88 na Champions, 2 nas Supertaças Europeias, 22 na Taça do Rei, 3 na Supertaça de espanha e 4 no Mundial de Clubes.

Chamam-lhe Máquina.

Foi o colega Toni Kroos que o disse após o hattrick ao Atlético: “Podes fazer tudo bem, defender, mas é preciso alguém que faça golos. E o Ronaldo marca sempre”. Imaginem, um alemão absolutamente rendido ao português que nos quartos-de-final eliminou o maior clube da Alemanha com cinco golos há umas semanas. Acontece no futebol.

Ronaldo é o Michael Jordan do futebol, porque CR7 transformou um jogo colectivo num jogo individual tal como o MJ fez nos Bulls. Os colegas também sabiam que quando a coisa apertava, a solução era pôr a bola nas mãos de Michael; hoje, a malta do Real Madrid sabe que quando o jogo está complicado, Cristiano descomplica-o porque ele próprio descomplicou o seu jogo.

Estes são outros atributos de Ronaldo que não medi no início do texto: a inteligência e a capacidade de adaptação. Ele foi um extremo rápido cheio de truques, transformou-se num extremo com golos e agora é um avançado goleador. Não consegue fazer os sprints dantes, nem precisa deles; explode em espaços curtos e aproveita o instinto que apurou, de certeza, com horas e horas e horas obcecadamente a rematar à baliza, com a cabeça, com o pé esquerdo, com o pé direito.

Não sendo outro, Ronaldo parece outro, outra vez. Ele é o rei camaleónico, dos penteados mil e das metamorfoses futebolísticas, e o mais provável é ele fintar-nos a todos novamente no futuro.

Não seremos nós a acabar com a carreira de Ronaldo, será ele a acabar connosco.»
(Pedro Candeias, in Tribuna Expresso)


Não sei quem acabará com quem e com quê! Mas sei que ontem, após mais um sublime recital de Cristiano Ronaldo, me senti... cansado de tanta satisfação, bebida às pinguinhas, para que durasse mais tempo ou, porventura, nunca mais acabasse!...


E depois de apreciar esta curiosa, bem congeminada e ainda melhor escrita crónica de Pedro Candeias, também sinto que um dia destes será ele a acabar connosco...

Tal é a admiração e o orgulho por ser um dos nossos!...

Leoninamente,
Até à próxima

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