sábado, 23 de maio de 2015

Quando o Sporting perde, temos de tomar as dores uns dos outros!...

"Quando o Sporting perde, temos de tomar as dores uns dos outros"

Ficou a 20 pontos do Benfica na primeira fase, acabou a lutar pelo título de Juniores. De saída do Sporting, Boa Morte critica a falta de união na Academia de Alcochete e defende o trabalho de Virgílio Lopes. À espera de convites para o futebol senior, conta o que foi a época de uma equipa que chegou a ser arrasada pelos adeptos.
ENTREVISTA DE RUI MIGUEL DE MELO/A BOLA


RMM - Entrou no Sporting para a equipa B, assumiu os Juniores em Outubro e agora está de saída. Que razões o levam a não continuar?

LBM - Depois de ter trabalhado com formação em Inglaterra durante dois anos, vim para Portugal para trabalhar com o futebol sénior. Entrei em Outubro e fui apanhado de surpresa quando me propuseram orientar a equipa de Juniores. Não estava à espera. Pensei durante dois dias e aceitei. O que tenho em mente é futebol sénior.

RMM - Que equipa encontrou quando substituiu José Lima?

LBM - Apanhei a equipa em segundo lugar, numa altura em que a formação era muito criticada. Apanhámos adversários difíceis na Youth League e percebi que seria um desafio grande. Mas não tive medo. Quando peguei na equipa percebi que problemas existiam.

RMM - Que problemas eram esses?

LBM - Falta de atitude e empenho. Teve que ser corrigido. Avisei logo que quem ficasse no grupo iria trabalhar a fundo.

RMM - Estamos  a falar do último patamar antes do futebol sénior. Como pode existir falta de atitude, num clube como o Sporting?

LBM - Não posso responder por isso. Só comecei em Outubro, mas algo estava mal com os miúdos. Não sei se essas questões vinham de anos anteriores. Encontrei uma realidade diferente do que é o trabalho.

RMM - Suponho que não era assim quando foi junior do Sporting?

LBM - Nunca foi assim. Por isso os meus métodos chocaram algumas pessoas. Estamos todos no mesmo barco. Quando o Sporting perde, seja a primeira equipa, B ou formação, temos de tomar as dores uns dos outros. E quando o Sporting ganha a alegria é de todos. Tenho de ficar feliz quando os sub-15 vencem o campeonato. Não posso pensar que faço o meu trabalho e não quero saber do resto.

RMM - Há falta de união entre os treinadores da Academia?

LBM - Se há falta de união? Critico porque, no domingo passado, os Iniciados foram campeões nacionais. Um dia antes, eu e o Ventura saímos e deixei de ser trabalhador do Sporting às 21.00 horas. Mas não posso ser o único treinador da formação, a apoiar os sub-15, no Seixal, com o Benfica.

RMM - Ninguém os foi apoiar?

LBM - Não sei, não vi. Naquele momento a formação tinha que estar em peso a apoiar os sub-15. A alegria deles era serem campeões nacionais e boa para os outros treinadores. Quem ganhou foi a formação do Sporting.

RMM - Reuniu-se com Virgílio Lopes no final do jogo com o Benfica. Que balanço foi feito?

LBM - Um balanço positivo, mas não conseguido de todo. Não fomos campeões. Traçámos e o único ali que acreditou que podia ser campeão foi o Ventura. Eu só queria ganhar jogo a jogo. Não acreditam como estavam aquelas cabeças (dos jogadores). Foram agredidos verbalmente pelos adeptos durante grande parte da época.

RMM - Pode dar um exemplo?

LBM - Quando jogámos em Inglaterra, com o Chelsea, perdemos 0-6. Antes do jogo da primeira equipa, os miúdos andaram duas horas por Londres e, quando cheguei ao pé deles, disseram-me: mister, já nos chamaram tudo. O que podemos esperar da nossa formação, quando os nossos próprios adeptos agridem os jogadores daquela forma? Os miúdos deixaram de acreditar. É fácil culpar o Virgílio, mas não pode ser o Virgílio a resolver todos os problemas. Os treinadores têm que lhe facilitar o trabalho. É fácil dizer que a culpa não é minha e atirar para o outro.

RMM - Há tendência de culpar o Virgílio dos problemas da formação?

LBM - Quando peguei nos Juniores vi notícias que diziam tudo sobre ele. Virgílio tem comandado bem. Mas porque não facilitamos a vida ao Virgílio? Porque é que os treinadores só olham para o próprio umbigo? Primeiro estão os jogadores e o Sporting.

RMM - Quem ficou chocado com os métodos de trabalho?

LBM - Não vou dizer quais., mas eles sabem quem são. Tive apoio do Virgílio para trabalhar da forma como queria. Depois decidi ir buscar o Ventura.

RMM - Há preguiça no plantel?

LBM - Havia. E os miúdos reconheceram que, sem trabalhar, não tinham chegado à última jornada a lutar pelo título. Os miúdos eram agredidos verbalmente e tiveram que acreditar neles próprios.

RMM - O que mais o chocou quando chegou aos Juniores?

LBM - Os jogadores não conseguiam fazer 12 minutos de corrida contínua. Com 18 e 19 anos, à beira do futebol senior. Como é que iam jogar futebol? Não tinham hipótese.

RMM - Bruno de Carvalho estava a par de todos esses problemas?

LBM - Não sei. Virgílio é a pessoa mais indicada para falar. Mas está sempre em contacto com o Presidente.

RMM - Sentiu falta de condições para trabalhar?

LBM - Ninguém nos Juniores sentiu falta de condições. Mas tudo serve para contestar o Virgílio. Os sub-15 ganharam. Todos pensaram que esta equipa só ia levar porrada na fase final. Mas chegou à fase final a lutar pelo título. Virgílio ficou entre a espada e a parede, quando entrei para os Juniores.

RMM - Quando sentiram que podiam ser campeões nacionais?

LBM - Fizemos uma pequena pré-época na pausa do campeonato. Queríamos que os jogadores chegassem ao Gil Vicente a voar. Mas perdemos com o GilVicente e os jogadores cairam. Levaram três dias a reagir à derrota. Na jornada seguinte vencemos no Nacional, onde tínhamos perdido na 1ª  fase. Aí acreditámos.

RMM - A vitória no Olival, com o F.C. Porto, foi o ponto alto?

LBM - Foi. Estávamos a 5 pontos do F.C. Porto, Se eles ganhassem eram campeões. Aí percebemos que podia ser possível.

RMM - Como eram as relações com Paulo Leitão, director técnico?

LBM - Entrou em Fevereiro e, desde logo, disse qual era ao posição em relação aos treinos e aos próprios treinadores. Explicou-me que era um homem de campo.

RMM - Queria métodos de trabalho diferentes dos vossos?

LBM - Não me propôs. O que lhe pedi foi que não interferisse no nosso trabalho. Disse que não se identificava com o que via e que tudo seria diferente para o ano.

RMM - Como era a articulação com a equipa B?

LBM - Defendo que, se um jogador sai dos Juniores para a equipa B, é para ser utilizado. Não posso puxar jogadores dos Juvenis ou dos Juniores para fazer número ou potencializar o meu treino. Ir para um escalão superior tem de ser um prémio, não para fazer número.

RMM - Isso acontece no Sporting?

LBM - Não sei. Pergunte a outras pessoas. Isso é apenas o que eu defendo.

RMM - O Sporting é porta que fica aberta?

LBM - Não tenho que fechar portas. Quero trabalhar com futebol sénior. Já fui apanhado de surpresa a treinar na formação. Perceberam as minhas razões. Não fui despedido.

RMM - A nível de futuro, pondera treinar no Campeonato Nacional de Seniores? Ou o mínimo é a Liga 2?

LBM - Depende do projecto. Quero trabalhar, seja em Portugal ou no estrangeiro.

RMM - O futebol de formação recomenda-se ou já foi melhor?

LBM - Muitos clubes, sobretudo os que têm equipa B, deveriam proteger mais as equipas de Juniores. É uma competição que seria mais competitiva, se não decidissem levar os jogadores para cima, para jogarem 10 ou 15 minutos.

Muita água suja e fétida passou sob as múltiplas e complexas pontes da Academia Sporting nos escalões da formação, nesta época prestes a chegar ao fim. Muita gente debruçada sobre os varandins, bem tentou descarregar lixívia de modo a reduzir o cheiro e aumentar a transparência. Mas esta corajosa entrevista de Luís Boa Morte acaba por confirmar a sensação geral que há muito vive no seio dos adeptos sportinguistas mais atentos e lúcidos. Ninguém ouse tapar o Sol com uma peneira!...

Está à vista de todos o óbvio e generalizado aburguesamento, corruptor, corrompido e suicidário da formação leonina, na dezena de anos anterior ao actual Conselho Directivo do Sporting Clube de Portugal. As excepções, que felizmente terão existido, foram vozes clamando no deserto do laxismo e da incompetência e foram sendo corridas à patada com os rótulos mais convenientes à "nomenklatura" e substituídas por camaleões, bichos conchos e "cavalos de Tróia"! E a mais bela jóia sportinguista foi definhando e restaria hoje quase moribunda, não fossem alguns "heróis condenados das galés" terem continuado a remar, mesmo que não soubessem bem para onde e para quê!...

Não, o hediondo crime que quase matava o "Leão Rampante" não foi apenas perpetrado na "savana original" à volta de Alvalade! Para além do Tejo, aquela que foi concebida para ser a mais fantástica e acolhedora "maternidade leonina", parece ter-se transformado no curto espaço de uma década, numa verdadeira "colónia de além-Tejo", tratada da mesma forma, com os mesmos métodos e com o mesmo desprezo com que foram tratadas as nossas antigas "colónias de além-mar"! E o mais dramático de tudo terá sido que os agentes "colonizadores" se auto-intitulavam de... sportinguistas!... 

Tanto trabalho que todos os sportinguistas ainda terão pela frente!!!...
Mas cuidado. As palavras corajosas, ou se preferirem, o dedo indicador de Luís Boa Morte, também foi apontado  e com toda a razão e propriedade, aos adeptos sportinguistas! Que cada um de nós, sportinguistas, ponha a mão na consciência. Porque...


"Quando o Sporting perde, temos de tomar as dores uns dos outros". Para que quando o Sporting ganha a alegria seja de todos!...

Leoninamente,
Até à próxima

3 comentários:

  1. Acertou nalgumas coisas, falhou noutras. Só me questiono quem foi o iluminado que o colocou a comandar uma equipa da formação.
    As tais cargas físicas e treino sem bola devem ter chocado todos os treinadores dos variados escalões e o director Paulo Leitão.
    Fico feliz de LBM ter saído ou então estaríamos a regredir 20 anos.
    Obrigado amigo Álamo por estes espaço.
    Abraço.

    ResponderEliminar
  2. Caríssimo:
    Fenomenal entrevista, de um homem que trabalhou muitos anos num país onde se diz o que se tem que dizer, sem medo de se ser tomado por anti qualquer coisa.
    Espero que esta entrevista e os seus ensinamentos estejam a ser analisados à exaustão na devida sede, caso não fossem ainda conhecidos os factos nela revelados, o que espero não fosse o caso.
    Tenho pena que não aproveitemos um pouco mais homens com esta desassombrada visão, e seja mais um que, decerto, dentro de algum tempo, vá brilhar com outras cores.
    Até porque não sei se os nossos séniores conseguem correr 12 minutos continuamente.
    Um forte e leonino Abraço,
    José Lopes

    ResponderEliminar
  3. Mais um timming perfeito... Para
    ficar chocado com a ambição de um sujeito que agora quer é treinar homenzinhos em vez de crianças...

    Não terias feito muito melhor serviço ao SPORTING CLUBE DE PORTUGAL se tivesses ficado e contribuído para a melhoria do clube... Não...! É tão mais fácil abandonar o barco e vir logo por a boca no trombone no jornal lá da rua...

    Sabes Luis, é que eu também fiquei satisfeito com a vitória dos miúdos no Seixal.... mas ficaria muito mais satisfeito se visse os graúdos a trazer o caneco do Jamor...

    São perspectivas...!!!!

    SL

    ResponderEliminar

PUBLICIDADE