terça-feira, 4 de outubro de 2016

Um dia alguém inteligente há-de reparar em si!...


A VINGANÇA DO GIGANTE GOLEADOR

«Sendo verdade que uma equipa se consolida na harmonização de virtudes distintas, a integração de um jogador desfasado dos restantes pode aumentar a qualidade global. Longe do talento de quem o rodeia, Bas Dost segue o instinto, aproveita a arte dos outros e tenta revertê-la em prol das suas melhores qualidades: como não tem fantasia vinga-se marcando golos – quem lhe pode levar a mal? O erro tem estado presente na sua produção mas vive fase transitória até à integração total. Os tiros certeiros que já tem como leão permitem-lhe não fazer uma tragédia de cada vez que define mal um movimento, não acerta um passe ou não dá seguimento a um lance. Perto da baliza é um portento: acompanha os envolvimentos, analisa-os e corre para o sítio certo, como se tivesse encontro marcado com a bola, num lugar que o instinto escolheu. Quando o entendimento estiver mais oleado, Dost cumprirá melhor a obsessão pela eficácia, enquanto a equipa encontrará o especialista ideal para dar saída ao bordado da construção.

Bas Dost pode escrever uma enciclopédia de como jogar na área e está em condições de dar aulas sobre tomadas de decisão na recta final do processo de aproximação à baliza. Por isso, e porque tem um rasto goleador impressionante, tem autoridade moral para reclamar aos companheiros um esforço suplementar para aperfeiçoarem a cumplicidade e criarem sintonia. O novo ponta-de-lança tem um padrão físico e criativo irreverente com quem lhe alimenta a veia goleadora – Gelson, Markovic, Bryan Ruiz, Bruno César, Alan Ruiz... Precisam agora de acentuar a química para que a equipa potencie a produção. Dost é um especialista do último toque, os outros são exímios criadores de futebol. Não são comparáveis mas estão condenados a ser complementares e mal seria se o resultado da integração fosse a loucura de vermos um cowboy com pontaria afinada no meio de uma orquestra sumptuosa, a tocar as mais belas sinfonias.

Tem menos amplitude e agressividade do que Slimani e é menos habilidoso do que qualquer ponta-de-lança do Sporting; mas assenta em técnica austera, que lhe permite ser preciso e eficaz nos gestos mais elementares e nos movimentos específicos da vida que escolheu: a recepção, o passe, o remate, o jogo de cabeça; o posicionamento, a ocupação do espaço, o ataque à bola. São quase 2 metros de jogador com alguns defeitos adjacentes mas muitas virtudes construídas a partir dessa desvantagem. Bas Dost conhece as limitações e atingiu a excelência também pela inteligência humilde com que encara e interpreta a acção: não dribla porque não sabe; não se afasta da área porque pouco acrescenta longe dela; não ensaia truques porque não tem imaginação para isso. Mas lida bem com o erro, é lúcido e tem ambição para demonstrar que pode ser útil a todo o momento.

A única finta que conhece é sobre a mediocridade. Foi assim que conseguiu sair vitorioso da mesquinha contribuição da natureza para a sua formação como jogador. Por isso continua a aprender e, no Sporting, bem pode despertar todos os sentidos para se aproximar da excelência, seguindo os conselhos de mestre Jorge Jesus. Bas Dost configura a imagem do gigante desarticulado e deselegante, cuja síntese não o favorece aos olhos de quem se habituou a valorizar cada intérprete numa perspectiva artística. O holandês é daqueles futebolistas que muitos resumem como não tendo a magia dos grandes génios; que jogam pouco e ‘só’ sabem fazer o que o futebol tem de mais difícil e valioso: o golo. É fundamental ter paciência com eles e nunca subestimá-los porque, na mesma noite, podem ir do céu ao inferno. E vice-versa. Os avançados, como todos os jogadores cuja tarefa se baseia em dados concretos, têm quase sempre razão. São predadores temíveis. Dão-nos cabo dos nervos mas valem um dinheirão...»
(Rui Dias, De pé para pé, in Record)

Ao ler esta crónica de Rui Dias, confirmei quase em surdina e de modo a que só eu ouvisse, que andará uma multidão de gente nos grandes centros de decisão da actividade jornalística cá da praça, sem a mínima capacidade para apreciar o talento que os rodeia.

Quem consegue colocar no papel, ou noutro sítio qualquer que as novas tecnologias alcancem, sem atentar contra nada nem ninguém, o retrato conciso e preciso de um jogador de futebol a quem a Natureza entregou apenas uma pequena parte do talento que a outros concedeu, mas em compensação, equilibrou a sua dádiva com faculdades que também lhe permitem alcançar a realização plena e a felicidade, não deveria ser obrigado a andar a coçar o cu pelas esquinas de uma redacção ou em reportagem de fretes e encomendas.

Quem tem a capacidade intelectual para ver mais longe que a ambliopia jornalística que emprenhou a quase totalidade das redacções e para emoldurar cada quadro que sai das suas mãos, com a estética e o talento de um artista, não deveria andar a servir de escada à incompetência, ao sectarismo, à submissão e à mentira!...

Continue Rui Dias. Um dia alguém inteligente há-de reparar em si!...

Leoninamente,
Até à próxima

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