domingo, 16 de outubro de 2016

Teremos cesariana marcada?!...


GALLARDO

«Como é meu hábito, lia no sábado o diário "Marca", e desfrutava da excelência da crónica "Comprimidos", que preenchia na totalidade a última página do melhor desportivo espanhol, quando dei comigo a pensar na caterva de anos que tiveram de decorrer para que o autor do texto, Juan Ignacio Gallardo, chegasse a director daquele jornal.

Na minha década à frente do Record, o título de Madrid trocou quatro ou cinco vezes de responsável editorial, tentando que "a frescura de um novo olhar" – como Bárbara Reis definiu, no seu texto de despedida da direção do "Público", a necessidade de mudança – travasse a quebra de vendas que desde o início do século atingiu as edições em papel por todo o Mundo.

A cada substituição de líder, a "Marca" mudava tudo, do grafismo ao alinhamento do jornal, da composição das direcções e chefias à escolha dos colunistas. Mudava tudo, não, porque duas opções resistiam: as aberturas de edição, largamente dedicadas ao Real Madrid, e a permanência de Juan Ignacio Gallardo no núcleo duro do diário – ou muito perto dele.

Só o conhecendo através de amigo comum – e ele que escreveu no Record tantas vezes! – sei bem porque sobreviveu Gallardo às sucessivas purgas. Por um lado, porque a sua qualidade era superior à das sumidades a quem a "Marca" inutilmente recorria. E por outro, porque os directores fabricados pelo marketing pessoal percebem pouco de jornais e precisam de um artesão, com conhecimento e tarimba, para os colocar no mercado. A vaidade e a pretensão esfumam-se em meses, são curtas para a dura luta dos dias que vivemos.»
(Alexandre Pais, Canto Directo, in Record)

Julgo que não andarei muito longe de adivinhar os alvos desta hermética e singular crónica de Alexandre Pais, ex-director do jornal Record, quando remata que "a vaidade e a pretensão esfumam-se em meses e são curtas para a dura luta dos dias que vivemos"!...

Teremos cesariana marcada?!...

Leoninamente,
Até à próxima

4 comentários:

  1. se for para atirar pela janela o farelo e outros trapalhões todos... talvez volte a ser leitor do jornal.

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    1. A desgraça dos outros não traz a felicidade a ninguém, mas não haverá regra sem excepção!...
      (do livro da vida)

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  2. O Jornalismo em Espanha é diferente. Muito diferente.

    Acho curioso a tentativa de comparar o exercício dessa profissão nos meios de com. social espanhóis e nos meios portugueses. Quando li a crónica, Álamo, ri-me.

    E ri-me porque me parece tão evidente a necessidade, a intenção de estabelecer, como base, essa comparação, como é evidente que a atribuição dos Globos de Ouro portugueses é uma tristonha e barata imitação da cerimónia dos Emmys nos EUA.

    O jornalismo espanhol é a herança e evolução de muitas coisas:
    - o jornalismo anti-Franco em Madrid
    - o jornalismo muito sofrido anti-Franco em Barcelona
    - o jornalismo de multiplas comunidades autónomas, cada uma com a sua identidade, cada uma ostentando com orgulho a sua cultura face ao domínio de Madrid
    - o jornalismo dividido entre as forças de apoio ao Golpe de Estado de 1981 e as que se lhe opunham
    - o jornalismo dos republicanos versus o jornalismo dos monarquicos
    - o jornalismo sobrevivente de atentados bombistas dos separatistas bascos
    - o jornalismo de um país com mais de 45 milhões de habitantes, imensos recursos, imensas diferenças culturais, e uma enorme área geográfica

    Este jornalismo é ainda um jornalismo que se cola aos maiores clubes representativos das Comunidades autónomas. E, claro, dois desses clubes são colossos mundais e movimentam imensas forças à sua volta.

    A Marca, tal como o As, tal como o Sport da Catalunha, são o resultado de tudo isto - e estou certo que o sr. Pais sabe isto tão bem como eu.

    Os caracteres genéticos que se podem ver no nosso "jornalismo" pouco ou nada têm em comum com os do nosso vizinho.

    Boa tentativa, sr. Pais, diria eu. Mesmo tendo em conta os destinatários...

    Ah...antes que me esqueça: penso que o que adivinha, caro Álamo, é o que eu adivinho também.

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  3. Já vai tarde... as águas há muito que rebentaram.
    SL
    Basco "O Leão"

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