quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Não há cura para a mente onde se instala a ideia do suicídio!...


O SUICÍDIO

«Gerard Piqué entrou em campo, no jogo contra a Albânia, com as mangas rasgadas. Sendo catalão, logo se criou ali um caso: o defesa teria cortado as mangas para se livrar das cores de Espanha. Farto, o jogador informou que dava por encerrada a sua participação na selecção. Não há prazer possível quando se é saco de pancada. A Federação informou que as mangas não tinham as cores nacionais. Estavam apenas demasiado curtas e incómodas. Perante a prova da asneira, a injustiça da acusação e o resultado da polémica, o director do Às, jornal que durante vinte minutos fez eco da fúria das redes sociais, pediu desculpas e apelou a que Piqué reconsiderasse a sua decisão. Também em Espanha, o guarda-redes do Sporting de Gijón, Ivan "Pichu" Cuéllar, descompôs um jornalista em termos que não se podem reproduzir aqui. O repórter insinuara que o jogador provocara os adeptos depois de ter saído do autocarro da equipa. Como mostram as imagens e foi confirmado, olhava preocupado para alguém que estava a ter um ataque de epilepsia.

Piqué e "Pichu" têm toda a razão. Já não se trata de um erro que pode acontecer em qualquer profissão. É um padrão: na vertigem da atracção de leitores, primeiro repete-se o boato, depois investiga-se. Mas quem se tem de preocupar com as audiências e com as vendas são os empresários de comunicação social. Nós, os jornalistas, temos uma única função: dar aos cidadãos a informação que consideramos relevante e que conseguimos confirmar. Mesmo que sejamos os últimos, mas aqueles em quem as pessoas confiam. Não podemos ser um prolongamento das redes sociais. Não podemos ser a quadrilheira da aldeia. Ninguém decide ser jornalista porque gosta de vender jornais. Para travar este suicídio, só temos de nos lembrar porque escolhemos esta profissão.»
(Daniel Oliveira, Verde na bola, in Record)


Gostava de apreciar as expressões de uma mão cheia de jornalistas que partilham as páginas do jornal onde Daniel Oliveira fez publicar esta sua crónica. Dos outros jornais e de outros jornalistas já nem falo! Há muito que serão casos perdidos. Mas acerca do jornal em que quase aprendi a ler e onde bebi uma boa parte da cultura desportiva e não só, que hoje me envaidece e orgulha, nunca me há-de doer a voz para por todos os meios tentar abanar consciências narcotizadas que por lá vão comendo a sopa do dia, negociando a sua própria dignidade.

Ambos sabemos porém, o Daniel e este outro leão que vos vai entretendo com as suas tretas, que... será como chover no molhado!...

Não há cura para a mente onde se instala a ideia do suicídio!... 

Leoninamente,
Até à próxima

9 comentários:

  1. Espero, amigo Álamo, que não se importe com eu colocar aqui mais um comentário.

    Piqué e "Pichu" têm toda a razão, escreveu Daniel Oliveira.

    Devo dizer que concordo com o pensamento principal de DO. Parece haver uma busca pelo sensacional, por aquilo que provoque uma cascata de reacções (no nosso rectangulozinho da Peninsula, o melhor exemplo disso é o CM e o seu canal televisivo).

    Um dos exemplos (piores) desta mentalidade vive em Espanha, e dá pelo nome de Josep Pedrerol. Este senhor, tão respeitado, tão influente, tão falado, tem o descaramento de dizer frequentemente "imparcialidade? nunca, jamais". É o mesmo jornalista que disse em 2013 "Ser imparcial es una gran mentira de esta profesión".

    UM jornalista devia ser asséptico, límpido, imparcial, corajoso. Logo, estou de acordo com quem pensa assim.

    O problema é que DO usou o exemplo errado: Gerard Piqué. Conheço a história de Piqué bem, já vivi em Barcelona e conheço o que está na base da demagogia de Piqué.

    Comparar o caso de Piqué com o caso de "Pichu" não é acertado, pois é comparar alhos com bugalhos. Para perceber o caso Piqué temos de analisar anos (anos!) de provocações e insultos deste jogador a jogadores do Madrid e da selecção espanhola - e aí perceberemos a perseguição que alguns começaram a fazêr-lhe.

    De resto: estamos de acordo, Daniel Oliveira.

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    1. Claro que se o caro Chronus conhece o caso específico de Gerard Piqué, o seu comentário acaba por ser um excelente contributo para a discussão do tema. Mas eu estou em crer que o objectivo de DO foi claramente abordar a questão dos "vendilhões do templo", de que já andará enojado lá pelo nº 3 da Rua Luciana Stegagno Picchio!...

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    2. Barcelona tornou-se mais...extremista a partir de 2010, 2011. Diversos vice-presidentes, candidatos a presidentes e presidentes colaram-se à bandeira da "independência catalã". Enquanto vivi lá havia muito mais tolerância ao resto de Espanha, mesmo relativamente a Madrid.

      O Piqué colou-se a tudo isto. É um homem muito inteligente, gosta de provocar reacções, gosta de mexer com a imprensa. Tudo o que faz tem um objectivo. Tudo. Aqui em Portugal poucos se apercebem disso.

      Por isso disse que a comparação dos dois incidentes não é adequada. O Piqué fabricou o incidente, e uma certa facção da imprensa vai atrás. E até aí há dedo da imprensa catalã (devido aos objectivos políticos) e do próprio Piqué.

      Entendi perfeitamente o que disse DO, estou de acordo com ele. Contudo, o objectivo do exercício comparativo perde força devido ao que expliquei acima.

      Ainda sobre DO: bem haja, precisamos de mais cérebros pensantes a explorar o trabalho da Comun. Social portuguesa nos dias de hoje. Todos perdemos se a Comun. Social não está no bom caminho (e não está).

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    3. Caro Chronus, fico-lhe grato pelo seu comentário! E permita-me citar como referência o que disse: "todos perdemos se a CS não está no bom caminho (e não está)"! Ora a melhor prova de que não está no bom caminho, para além do seguidismo, quase alienação, que vem adoptando em relação à putrefacção que exala o "pântano do futebol", será o facto de a exemplo do que o caro explica sobre Piqué, em todos os campos "extra-futebol", nomeadamente no campo da política, nacional e internacional, estarmos servidos actualmente em Portugal, por uma "corporação de jornalistas de aviário pós-25 de Abril" culturalmente limitada, que nem sabe, nem procura saber, incapaz de "fornecer" em termos internacionais, à sociedade de onde proveio, instrumentos de trabalho que lhe possibilitem alcançar uma perspectiva real do que vai pelo mundo. Já não bastava no campo da política nacional, assistirmos diariamente e há longos anos, a uma escandalosa mimetização dos ideais da Direita mais estúpida e retrógrada do mundo, quase fotocópia do comportamento adoptado no campo do desporto em relação aos "DDT's", o Benfica.

      Creio ser dramática a perspectiva das gerações vindouras, com uma CS desta estirpe, perante a qual, aqueles que recusam "comer gelados com a testa", se vêem impelidos a cantar hossanas quando "chocam de frente" com a coragem e a inteligência de um Daniel Oliveira!...

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    4. E...mas continuamos de acordo, caro Álamo.

      Não sei se o Álamo é jornalista. Sei de alguns jornalistas que escrevem as suas opiniões em blogs e não se atrevem a criticar a própria classe, portanto, se o Álamo o é saudo-o pela capacidade de olhar criticamente aquela que devia ser uma das mais nobres actividades...mas que hoje em dia NÃO O É.

      Considero o dever de informar e o dever de exercer/dispensar Justiça sagrados. Quer uns (jornalistas) quer outros (procuradores e juízes) devem ser neutros, assépticos, impolutos e, em ultima análise, corajosos. Acresce ainda o dever inapelável de incorruptibilidade.

      Por alguma razão (e sobre isso já escrevi no meu próprio blog), entende a sociedade at large (perdoe-me o anglicismo) criticar a Ciência e os Cientistas pela adesão ao capitalismo via relações com as corporações. Daqui advêm imensas torrentes de diatribes anti-ciência, a maior parte injusta e acima de tudo ignorante. [Não disputo que haja algo a criticar, pois de facto há.]

      Não entende a sociedade at large fazer o mesmo tipo de crítica ao jornalismo sensacionalista, o jornalismo que se vende por pouco e que vende perspectivas, enquadramentos, ou como dizem em Inglês, "ângulos".

      E da mesma forma poucos parecem incomodar-se com a manipulação do poder da magistratura. Órgãos como os Juízes, a Procuradoria Geral e a PJ deviam ser tratados com completo respeito, e deviam ser dotados de mecanismos que garantissem a sua independência e bom funcionamento.

      Já que vivemos num Estado Não-Natural, já que vivemos numa sociedade com regras que forçam certos comportamentos e comprometimentos, então estas actividades/orgãos/entidades deviam ser tratadas com respeito e de quem nelas se envolve devíamos exigir um carácter forte, impoluto, incorruptível e um fortíssimo senso do dever. Refiro-me, recapitulando, quer ao jornalismo quer ao poder de dispensar e assegurar Justiça.

      Não se reverencia a independência, não se reverencia a competência, não se reverencia a lealdade e muito menos a Verdade.

      A Comunicação Social - a que está ligada à Direita, a que está ligada à Esquerda, a que está ligada ao SLB, a que está ligada aos Republicanos americanos, a que está ligada aos Democratas americanos - é um actor intensamente...activo, um actor que toma partidos, que influencia opiniões e tendências.

      E como há sempre quem com isto beneficie (o tal Gato de fora com o rabo preso), quem de tudo isto se queixa é que se torna o problema.

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    5. Caro Chronus, serei hoje, depois de uma longa e árdua caminhada na área das engenharias, o jornalista que não pude ser, em tempos em que o meu saudoso pai, humilde guarda-fios dos também saudosos CTT, teve que andar com cuecas de sarja e calças de cotim fundilhadas, para conseguir sustentar a rápida e consequente carreira académica do único filho, sem chumbos ou tergiversações e rápida entrada no mercado de trabalho. Mas não haverá amor como o primeiro e logo que estabelecido o "divórcio" com a profissão, vim a cumprir o sonho de... "casar com a blogosfera", única escapatória que me restava neste pôr-de-sol que espero e desejo se prolongue e imite o também saudoso Manuel de Oliveira.

      Comungo o sagrado que para si representa o jornalismo e a magistratura e partilho as razões que lhe sustentam o ideal, numa sociedade injusta, interesseira e sem valores, que não tem pejo em se colocar nos antípodas do humanismo: "não se reverencia a independência, não se reverencia a competência, não se reverencia a lealdade e muito menos a Verdade"!

      E comungo também a sua visão sobre as ligações espúrias da Comunicação Social, local, regional e universal, na condição de "actor intensamente...activo, um actor que toma partidos, que influencia opiniões e tendências", apenas com uma reserva que certamente me permitirá e que consubstanciará uma escolha clara e inequívoca por todas as correntes, desde que aureoladas pelo poder, seja ele político, económico, financeiro ou outro qualquer...

      Enfim, como recentemente afirmou Nicolau Santos, outro jornalista, economista e sportinguista que muito admiro, eu diria, sob minha palavra profunda e agnóstica, que... "Sou keynesiano, graças a Deus"!...

      É um gosto muito grande trocar impressões consigo. Bem haja.

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  2. Perante uma conversa tão cheia de principios e teorias de que sou amante fervoroso não gostaria de entrar pelo degrau mais baixo! Eu, e aqui sou eu a falar, tenho a obrigação de me apresentar como alguém que conhece a Espanha! Mal seria que depois de mais de 17 anos em que frequento a Espanha quase obrigatoriamente (tenho ai apartamento) não me tenha apercebido do que por la vai! Continuo a entender que o PP (o partido de Rajoy e Aznar) não se queira ver privado da sua capacidade de corrupção! Quanto ao Gérard Piqué é claro que é (para além das suas capacidades de jogador) uma pessoa inteligente que se aproveita disso para defender os seus principios que nada têm a ver com o futebol! Sera por isso que tantos amarelos leva?

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    1. Se o Álamo me permitir este pequeno desvio:

      Aboim,

      talvez seja utópico da minha parte, mas sempre acreditei que, salvo raras excepções (do género da que conduziu um então famoso atleta alemão a morrer na frente russa após ter defendido e elogiado Jessie Owens perante os seus "colegas" nazis), o desporto e a política não deviam andar de mãos dadas.

      É por isso que acho mal-orientadas as notórias "esteladas" no Camp Nou e o convívio "estranho" entre a cúpula do Barça e as altas instâncias da Generalitat.

      O Piqué é um rapaz muito inteligente. Ele começou a espalhar as sementes da sua candidatura à presidência do Barça há 2 anos. E tudo é feito - por ele e pela sua equipa de assessores - para avançar para esse objectivo.

      Mas Piqué não ficará por aí. Ele vem de uma boa família - realmente boa. É, contudo, um rapaz ambicioso. É um rapaz com uma visão profunda e ambiciosa sobre o seu futuro e o seu papel no futuro do clube e, acima de tudo, da Catalunha. Se ele quer a independência ou não, poucos sabem (há quem garanta que não o deseja; e, de facto, ouvi declarações suas a comprovar isso).

      Um dia, veremos.

      Quanto aos amarelos que Piqué recebe:

      não recebe metade dos que devia receber. Penalties que faz mas não lhe são imputados, faltas merecedoras de acção disciplinar mas não punidas, e, há mais de 1 ano, insultos inaceitáveis contra arbitro e assistentes.

      Ele é um provocador que adora ver a imprensa atrás da própria cauda.

      Eu imagino que o seu castelhano seja bom, Aboim, portanto finalizo com esta pérola do Piqué a respeito de um ex-colega de selecção, um colega de profissão que é um ídolo para o grande rival do Barça: Arbeloa.

      No Real Madrid, Gutti e Arbeloa são os unicos que oferecem resistencia e que "dão o troco" aos do Barça nos social media. Arbeloa, inteligente e cuidadoso, extremamente educado mas ainda assim contundente. Ele e Piqué tiveram algumas interacções curiosas ao longo dos ultimos 20 meses.

      Há quase 1 ano, quando o instaram a comentar a sua amizade com Arbeloa, perante câmaras e microfones, Piqué simplesmente atira um maquiavélico:

      "Arbeloa no es mi amigo, es un cono... cido."

      Se sabe o que ele quis dizer, sob o disfarce da ironia e de um jogo semântico, sabe como ele foi insultuoso.

      Por isso o perseguem, e não por convicções ou cor clubística. Amarelos? São-lhe poupados mais do que o normal.

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    2. Chronus,

      Admitindo que este meu comentário não venha a incomodar o nosso Amigo Álamo que tem toda a possibilidade de o não publicar, devo dizer que diferimos mais que um pouco nas nossas apreciações sobre jogadores da Liga espanhola que eu sigo quase tão religiosamente quanto a portuguesa! Receio que sejamos entusiastas de clubes diferentes nessa Liga Santander! Eu gosto do tipo de futebol que o Barça pratica e que é, sem dúvida alguma, o fruto do trabalho de Johaan Cruijff e continuado por Pep Guardiola e actualmente um outro ex-jogador do Barça! Quando me encontro em Espanha (meio ano ao ano) assisto aos programas onde Pep Pedrerol (catalão de origem) e Thomas Roncero tentam dar um show por vezes demasiado acrobático para defender o RM e atacar o FCB! Por razões talvez históricas eu detesto o RM e nem o CR7 e muito menos o Mourinho conseguiram fazer-me mudar de opinião! Já que citou o Arbeloa eu permito-me citar o Sérgio Ramos e espero que esta simples citação o ajude a adivinhar do que pretendo falar!

      Para mim já é um pouco tarde mas termino afirmando que o meu problema dos acentos agudos só têm lugar quando utilizo o IE já que com o Chrome tal não se passa!

      SL

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