domingo, 29 de maio de 2016

"Há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não"!...



O ANDOR, O SANTO E OS FIÉIS

«O andor saiu novamente à rua, uns anos depois da epístola original, em procissão lá para os sítios da Ajuda e das suas protecções terrenas. O cetim brilhante, a madeira trabalhada e as flores viçosas não podiam enganar: o santo renovava as suas esperanças e almejava-se atingir o altar das preces. Vigiado pelos acólitos que o santificam com veneração e pelos escriturários das actas da diocese, rogava-se mais uma vez o sacrifício de não se gaguejar com a saliva e – missão treinada sem dó – transmitir sem balbuciar a mensagem renovada aos fiéis. Não só os fiéis das vestes, mas também alguns novos pagadores de promessas, a investir para a função e para a remoção dos desgastados.

A procissão tem o seu momento de maior fervor quando se anuncia o rol de pressupostos do mundo novo. Geralmente aqueles que já deviam ter sido mais do que feitos e plenos e, em cada procissão, aparecem como algo de transcendental aos crentes e aos divulgadores do dia seguinte. Depois alguém se incumbirá de registar que se fez tudo o que se prometeu e dar-se conta da boa nova. Com a graça de quem manda. A santificação beneficia da ignorância e da ausência de memória. Os paroquianos são assim, sempre se pensa que se engolem pela vista, pelos banquetes e pelas obras da diocese. Depois resta afiar as facas. No entanto, os acólitos que enchem de ideias a bula diária não descansam na promessa de fundo: deixar de partilhar o poder com a mais relevante paróquia, com secretária lá para os sítios de cima, que organiza as procissões mais vistosas. Há já quem entenda nessa paróquia que o melhor é entregar as suas procissões a quem folga no cofre e está forte na imagem. Há que forçar a vontade. Há que não deixar sem mão a fé de quem não acredita. Há que alargar a procissão e munir todos por igual com a esperança redentora.

Nota-se quem carrega o andor nos ombros pela primeira vez. Quem troque os olhos com fito e trace a perna em modo incómodo. São os apóstolos cimeiros das confrarias, que vão atrás, ficando à frente. Os paroquianos têm esperança em ver neles uma nova luz, uma outra transparência, uma certa urgência ou um oportuno adiamento ou, apenas e só, uma sorte na nomeação. Sentem que o andor tem caminho. A caminhada ainda vai a meio. O paraíso não deve tardar.

Mais um ciclo se aproxima na Federação do futebol. Com uma agenda escondida, um Estado relapso e a última batalha por fazer. Entre dentes, sussurra-se na procissão da Ajuda: devagar com o andor que o santo é de barro.»
(Ricardo Costa, Por força da Lei, in Record)


Com a devida vénia a Ricardo Costa pela sublime crónica, deixo-lhe a minha homenagem com a sempiterna mordacidade de José Carlos Ary dos Santos e o talento de Fernando Tordo, lembrando-lhe que o "inteligente" não foi capaz de acabar com as canções!...  



"Há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não"!...

Leoninamente,
Até à próxima

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