domingo, 9 de abril de 2017

A Nova Corja!...


Mãos estendidas

«A comunicar também se ganha, mas a recadaria ululante está a esquecer o importante: é um jogo

Podem não saber dar um pontapé numa bola, mas são as estrelas deste futebol português. Comunicar é mais do que uma paixão, tornou-se a grande necessidade do momento, faltando apurar a sério, a sério mesmo, se os fazedores de casos políticos o fazem por recriação própria, para mostrar ao patronato serem de uma extrema e decisiva utilidade, ou se ainda acreditam que alguém possa acreditar neles, por mais apertada que seja a malha do casting dos recadeiros.

Comunicar é viver, é quase ganhar, mas essa é uma verdade a passar da fase de deturpação à do desprezo. Uns denunciam cartilhas, outros assumem-nas passando uma mensagem de importância e superioridade - a minha cartilha é melhor do que a tua! -, as vozes do dono são mais que muitas, tantas que vão acabar por correr com quem tem uma opinião própria e gosta de a partilhar. Os homens do futebol, infelizmente poucos nesta altura, acabarão despedidos se teimarem em continuar a sê-lo. Afinal quem quer saber de tácticas e sistemas de jogo? Servirá isso para alguma coisa?

As marcas estão a ser ultrapassadas. Mais uma vez vale a pena ouvir Jorge Jesus, mestre da táctica e dos mind games. Assume que travou com os rivais batalhas políticas porque a comunicação é demasiado importante para ser esquecida, mas a das quatro linhas, dos truques e da psicologia, da provocação perturbadora, o noutros tempos famoso vamos lá ver se te engano. Tem razão JJ: há demasiada agressividade e estão a esquecer o jogo.

Em breve passaremos das mãos estendidas à ausência total de cumprimentos. E esses relacionamentos vão deixar de ser estratégicos, passarão a irreversíveis.»
(Carlos Machado, Opinião, in O Jogo)

Será que ainda valerá a pena reflectir sobre esta desassossegada crónica de Carlos Machado?! Chegará algum dia este grito de revolta aos ouvidos dos que no futebol, "infelizmente poucos nesta altura", teimam em continuar a sê-lo, ou acabarão mesmo despedidos, eles e a sua teimosia, às mãos de uma nova e ainda mais inclassificável elite dirigente, que apenas substituiu a cor e os métodos arcaicos do apito dourado mai-los "quinhentinhos, a fruta e o café com chocolatinhos",  por degradantes "vouchers e cartilhas genuflectórias"?!...

Numa incursão igual a tantas que o meu espírito, também desassossegado, regularmente me leva a buscar por essa blogosfera fora, encontrei, sem data, referência ou ligação directa ao tema que hoje aqui trouxe, (LINK) uma curiosa opinião sobre "A corja", essa sublime e quase esquecida obra de Camilo Castelo Branco:

«A Corja espelha o "background" de toda uma sociedade, por fora e por dentro. Educação, emoções, vivências, rupturas, relações amorosas - agravadas por desníveis sociais, o anticlericalismo, a fidalguia da província, a burguesia urbana, os portugueses emigrados no Brasil que regressaram. As novelas de Camilo espelham essa galáxia de mundos. Há quem diga que ao pé de Eça, Camilo era um escritor de crimes passionais, ao passo que Eça um escritor mais sofisticado, mais elitista, cosmopolita, com mais mundo. E até era verdade, mas essa distinção não subtrai o imenso valor cultural e literário que Camilo Castelo Branco tem, embora ande muito esquecido entre nós. Creio que merecia ser actualizado, promovido, enfim, tratado com mais respeito e até carinho pelos amantes da cultura...»

Chegado aqui e virando-me para os meus botões, ousei questioná-los sobre se Camilo Castelo Branco se por cá ainda andasse, não voltaria a aceitar o desafio de reescrever uma "Nova Corja", esta centrada na actualidade do futebol português?!...  

Título, matéria mais do que suficiente e sucesso, já poderemos dar, sem muito esforço, por garantidos. Faltar-nos-à um novo Camilo que, pelo andar da carruagem e pela qualidade das bestas que a puxam... ainda nem sequer terá nascido!...

A menos que Marinho Neves, esquecido dos seus afectos e das feridas e dissabores do "Golpe de Estádio" e com conhecimento de sobra acerca do cheiro pestilento e nauseabundo que grassa nos bastidores, ousasse escrever a obra da sua vida...

A Nova Corja!... 

Leoninamente,
Até à próxima

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