segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Depois admirem-se da catalogação da farinha do saco onde se enfiam!...


A diferença entre cortesia e corrupção está no princípio

«O Benfica não reagiu oficialmente às acusações lançadas por Bruno de Carvalho sobre as ofertas que alegadamente faria a árbitros, mas fontes do clube já se desdobraram em esclarecimentos destinados a desdramatizar a situação. Que a caixa só tem um custo de produção de 24 euros, aos quais se somam as entradas no Museu Cosme Damião e os jantares no Museu da Cerveja, mas que de qualquer modo o total respeita os limites máximos impostos pela UEFA, que é de 200 francos suíços, algo como 183 euros. Acredito. Mas não me chega. O presidente da APAF, José Fontelas Gomes, apressou-se a vir defender a classe, garantindo que nenhum dos seus membros aceitava ofertas que fossem além dos tais 183 euros. Percebo. Mas também não me chega... 

Porque a diferença entre cortesia e corrupção não está no valor da oferta mas sim no princípio.

Nunca decidi jogos, como podem inadvertidamente fazê-lo os árbitros, mas sempre tive como muito claro que as minhas responsabilidades como jornalista não me permitiam aceitar ofertas de dirigentes de clubes, jogadores, treinadores ou empresários. E poucos saberão como me era sempre difícil explicar a familiares e amigos próximos as razões pelas quais não podia pedir sequer bilhetes para ir ver este ou aquele jogo, que já tinha lotação esgotada, mesmo que me oferecesse para os pagar – porque do outro lado podia sempre vir uma resposta como o “deixe lá estar isso: um dia destes faz-me um favor a mim”. A verdade é que nunca fiz pedidos desses e que jamais os farei. Porque a última coisa de que precisaria era de que um dia alguém me viesse recordar que uma vez lhe tinha pedido um bilhete para ir à bola, comido um almoço à conta ou aceite uma lembrança. Ora se isso é válido para mim, que – repito – não decido jogos, muito mais devia sê-lo para os árbitros, que com azar até podem fazê-lo.

É verdade que, por tradição, vários clubes fazem ofertas a árbitros há décadas. É uma questão de cortesia, alegam. Mas mais do que ir buscar o limite máximo de euros que a UEFA impõe, o presidente da APAF devia ter sido claro nas indicações a dar aos seus homens: não há razão nenhuma para que essas ofertas, mesmo sendo legais, sejam aceites por agentes que já são relativamente bem pagos para cumprirem as suas tarefas de modo profissional. Da mesma forma que não há razão nenhuma para que os clubes pensem em oferecer aos árbitros presentes cujo valor se aproxima da metade de um salário mínimo...

Porque ninguém oferece presentes a juízes do tribunal antes de uma audiência.

E porque não se pode bradar pela verdade desportiva, condenar a “fruta” e o “café com leite” e depois ser assim tão cortez com os árbitros. É que às vezes mais vale ser bruto.»
(António Tadeia, Último Passe)


Sem dó nem piedade, António Tadeia coloca toda a argumentação do presidente da APAF, ao nível de indigência do "chico-espertismo"!...

E lembrar-me eu de quantos benfiquistas, pretensamente eruditos e com "insuspeita" verticalidade na coluna dorsal, terem vindo por aqui perorar sobre a bondade dos actos corruptos praticados pelo seu clube, em relação a árbitros, observadores e delegados da Liga!...

Depois admirem-se da catalogação da farinha do saco onde se enfiam!...

Leoninamente,
Até à próxima

10 comentários:

  1. "a bondade dos actos corruptos praticados pelo seu clube".

    Nem o Carvalho se arroga a dizer estas barbaridades.

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    1. Obviamente que isso lhe está interdito, dada a função que desempenha. Já comigo, o caso muda completamente de figura: sou um cidadão livre e respondo pelos meus actos! E neste caso particular, exactamente pela razão que AT apresenta: "a diferença entre cortesia e corrupção não está no valor da oferta mas sim no princípio"! Para mim, o acto do Benfica corresponde a uma... TENTATIVA DE CORRUPÇÃO! O Ministério Público e outros orgãos competentes hão-se pronunciar-se! A única precaução que tomarei será... SENTAR-ME, dada a fragilidade das minhas pobres pernas e a sacramental morosidade da justiça cá na nossa terra!...

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  2. Se calhar o ex-ministro Miguel Macedo deveria deixar de ser Arguido. Afinal, uma garrafa de vinho não é suficiente para corromper, uma vez que corresponde a uma mera cortesia.

    E a "fruta" do Senhor Pinto da Costa, também não seria certamente corrupção, desde que os "três pratos" nunca tivessem ultrapassado 183 €.

    Este País está mesmo doente....

    SL

    José Eduardo

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    1. Permita o meu aplauso, caro José Eduardo.

      SL

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    2. Cara Álamo,

      Permita-me retribuir a simpatia e confidenciar-lhe que sou eu quem diaramente o aplaude.

      SL

      José Eduardo

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  3. Amigo Álamo, o meu aplauso para AT, de todas as explicações que ouvi esta é a única com "pés e cabeça" e a única que se enquadra perfeitamente naquilo que está a acontecer, tb subscrevo a sua resposta para o anónimo das 17:20...

    SL

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    1. Sem surpresas o seu comentário, amiga LeoaMaria. Grande abraço e SL.

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  4. Estes presentes, do SLB, não visavam agradar aos árbitros e, por conseguinte, influenciar as suas decisões. Não, não, pretendiam sim, causar um desagrado na psique dos "juízes"... Vejamos então, na mentalidade benfas: é uma gradação de corrupção, uma corrupçãozinha, que em Portugal. é completamente normal e aceite em termos culturais...

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  5. Caro Álamo, vou encerrar a minha intervenção neste assunto da oferta de cortesia, apenas para acrescentar que estes actos, não são actos corruptos ou tentativas de corrupção, isso é apenas uma opinião, parcial e tendenciosa ,no mesmo sentido em que a minha opinião vai na direcção oposta.E volto a afirmar, custa-me a crer que defenda essa ideia, com sinceridade.

    Posso concordar que é pouco ético, não se justifica, é abusivo, até será no limite excessivo, mas não podemos defender numas situações que os tribunais existem para decidir, e noutras o seu contrário - as convicções ficarão no âmbito estritamente pessoal, as decisões da justiça passarão a sentença lavrada.

    SD

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    1. Face à elegância do repto que me é proposto e neste caso específico, aceito-o.

      Vamos esperar pelas decisões da justiça.

      SD

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