domingo, 26 de março de 2017

"Pero que las hay, las hay"!...


ACABAR COM A LIGA

«Enquanto Pedro Proença falava esta semana de "negócio", de "plano estratégico" e de "receitas" para a Liga Portuguesa de Futebol Profissional, vai correndo com ardor o campeonato em que há muito a Federação Portuguesa de Futebol de Gomes e seus acólitos de colarinho branco meteram todas as fichas: acabar com a Liga! Pelo menos como organizador e regulador das competições profissionais, ficando apenas como "associação patronal" e agregador dos interesses dos clubes/sociedades desportivas. Proença não desconhece que os seus poderes na Liga são resultado de uma delegação legal de segundo grau e, no caso de o legislador assim entender, termina-se do dia para a noite esse "segundo grau" e fica tudo no "primeiro grau": do Estado para a FPF. Por isso força a sua aparente ambição de dar proeminência à Liga. Todavia, a FPF encanta-se com os poderes de sedução sobre os fazedores de leis a seu pedido e, por isso, Gomes espera pela oportunidade. Uma combinação explosiva, que encontrou um dínamo irresistível no funcionamento ensimesmado da Comissão de Instrutores da Liga desde o início da época.

Depois da sucessão de Cláudia Santos por Cláudia Viana na liderança do "Ministério Público" do futebol profissional sediado no Porto – uma última resistência ao monopólio da FPF na arbitragem e na disciplina –, percebe-se que essa solução (novo órgão da Liga com nova liderança) não foi de todo aceite na Lisboa dos poderes. E a estratégia de desgaste da Comissão de Instrutores teve naturalmente adeptos nos corredores da "cidade do futebol" (!!). Quanto mais se conseguir fazer passar a mensagem de que, na justiça desportiva, "a culpa é da Liga", mais hipóteses há de alguém levar o assunto ao Governo e estimular-se o pretexto que se aguarda: o risco de afectação da "utilidade pública desportiva" da FPF. Pois a lei está mesmo a pedi-las.

Vejamos (o artigo do Regime Jurídico das Federações Desportivas). "No caso de uma liga profissional persistir, depois de expressamente notificada, no não cumprimento, por acto ou omissão, de obrigação que implique ou possa implicar, nos termos do artigo 21.º, a suspensão do estatuto de utilidade pública desportiva da respectiva federação, deve esta comunicar tal facto ao membro do Governo responsável pela área do desporto, o qual pode, ouvido o Conselho Nacional do Desporto, determinar a cessação da delegação de competências referida no número anterior e a devolução, transitória, do seu exercício à federação desportiva." E, depois, tudo é possível, certo?»
(Ricardo Costa, Por força da Lei, in Record)

Lembrar-se-à muita gente da minha geração, de um curioso movimento na política internacional, singelamente designado por "Movimento dos Países Não- Alinhados", uma singular associação de países, resultado e consequência do aparecimento dos dois grandes blocos opostos durante a Guerra Fria liderados pelas superpotências de então (EUA e URSS). O objectivo seria manter uma posição neutral e não associada a nenhum dos grandes blocos e terão sido lançadas as primeiras sementes  na Conferência Ásia-África realizada em Bandung, Indonésia, em 1955, por convite, entre outros, dos líderes indiano Nehru, indonésio Sukarno e egípcio Nasser.

Alguns anos mais tarde e após um encontro preparatório no Cairo, delegações de 25 países reuniram-se em Belgrado de 1 a 6 de Setembro de 1961, na Primeira Conferência dos Chefes de Estado e de Governo Não-Alinhados, em grande medida por iniciativa do presidente jugoslavo Tito e mais Nasser, Sukarno, Chu En-Lai e Nehru., tendo sido oficialmente estabelecido o tal Movimento dos Países Não-Alinhados, sobre uma base geográfica mais ampla, principalmente novos estados independentes.

A razão que me fez trazer para esta tribuna o histórico Movimento dos Países Não-Alinhados, não poderia alguma vez ser a de lançar a discussão sobre a influência que tal movimento teve em termos de política internacional, desde a sua criação até aos tempos de hoje. Isso serão contas de outro rosário e para gente com outro saber que não eu...

Mas desde a última crónica de Rui Santos que aqui trouxe, que a analogia entre a "guerra-fria" subsequente à II Grande Guerra e a "guerra-quente" que me parece ter rebentado no futebol português, não me sai da cabeça.

E a crónica que Ricardo Costa hoje fez publicar no jornal Record, ainda veio "açular mais o meu vespeiro", atirando para as mais profundas fossas do maquiavelismo, tanto as estratégias perseguidas por quem pode dar a cara sabendo que, com as costas quentes, apenas poderá colher benefícios, quanto a hipocrisia de outros, que atiram a pedra sem que se lhes veja a mão. 

É por isso que, ainda que não faça o mínimo sentido chamar Nehru, Sukarno ou Nasser a Rui Santos e menos ainda apelidar Ricardo Costa de Marechal Tito ou Chu En-Lai, me vejo obrigado, compelido, mesmo não acreditando eu bruxas... 

A berrar alto e em bom som: "pero que las hay, las hay"!...

Leoninamente,
Até à próxima

2 comentários:

  1. http://sporting1967.blogs.sapo.pt/ Este é o novo link de "O Meu Sporting"
    Obrigado

    ResponderEliminar
  2. Se ainda me recordo esse tal grupo de países não alinhados "alinhava" quase sempre por um dos blocos ( era como um outro pelo desarmamento)...

    Querem ver que o "grupo dos não alinhados" da FPF..."já escolheu" o lado por onde vai alinhar...?

    SL

    ResponderEliminar

PUBLICIDADE