quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Será utópico julgar Bruno de Carvalho incapaz de mudar?!...


BRUNO DE CARVALHO E AS ELEIÇÕES DO SPORTING

«As eleições do Sporting ainda estão na fase de pré-campanha e Bruno de Carvalho já conseguiu o seu primeiro e talvez mesmo principal objectivo: a discussão não se está a fazer em torno do clube, mas sim à volta do Presidente e do facto deste se recandidatar ou não. Enquanto forma de condicionamento dos adversários - estejam eles já no terreno ou ainda em jantares a recolher opiniões e eventuais apoios - Bruno de Carvalho jogou uma boa cartada. Quanto mais tempo perdurar e ele mantiver a iniciativa em mãos tanto melhor para o próprio. Este tabu, que para muitos é apenas um bluff, alimentará dezenas de horas de conversas na TV, muitas paginas nos jornais e largas centenas de comentários e contra comentários nas redes socais. 

O primeiro - e veremos se único adversário do Presidente em funções - também foi pouco firme neste arranque: Madeira Rodrigues terá certamente boas ideias para o Sporting mas não resistiu em fazer uma avaliação do consulado de BdC. É óbvio que é esse período que está em análise, mas quem quer mudar deve ter um discurso virado exclusivamente para o futuro evitando a avaliação do tempo presente. Qualquer análise dessa natureza permite (e não é mentira) que Bruno de Carvalho lembre o clube que recebeu no início do seu mandato e todo o trabalho já feito. Os Sportinguistas, mesmo os que não se revêm no estilo truculento da actual gestão, não deixam de reconhecer que o clube mudou muito nestes últimos anos e se reposicionou. 

Em todo este processo há uma pequena ironia - Bruno de Carvalho está, de certa forma nas mãos de Jorge Jesus. O inverso não é verdadeiro. Se as coisas correrem bem no futebol, leia-se se o Sporting em Março ainda puder chegar ao título e estiver nas Taças, Bruno de Carvalho não será derrotado em nenhuma circunstância. Se, pelo contrário, o Sporting perder terreno para os rivais esse facto será aproveitado pelo outro candidato ou candidatos, mesmo que não coloquem Jorge Jesus em causa. Dificilmente o clube encontraria um treinador tão bom e despedi-lo, até pelo que custa, nunca será visto como um bom acto de gestão. 

Passada a breve trégua do fim do ano as eleições do Sporting vão entrar de vez na agenda e serão um tema dominante do primeiro trimestre do ano. Pode-se falar de democracia interna e vitalidade, mas não é necessário ser um adivinho para antecipar um processo duro e nem sempre muito limpo. De parte a parte. Ora, seria bom que todos pensassem nessa situação porque será uma forma de enfraquecer o Sporting e revitalizar os concorrentes, em especial o Benfica.»
(Nuno Santos, Ângulo Inverso, in Record)


É um facto incontornável que Bruno de Carvalho goza do privilégio de poder formalizar a sua candidatura até ao dia 2 de Fevereiro. Poder-se-à argumentar que o mesmo privilégio é concedido a quaisquer outros candidatos. Mas enquanto BdC poderá, incontornavelmente omnipresente, actuar ao longo de todo este tempo como candidato, outros apenas o poderão fazer a partir do momento em que formalizarem a sua candidatura. E essa é uma vantagem assinalável para o presidente em exercício, na medida em que corta pela base toda a possibilidade das polémicas que interessarão apenas aos outros: qualquer análise serena e lúcida apontará para que quanto mais quedo e mudo estiver BdC, mais facilmente derrotará todos os seus adversários, sendo que entre estes, poucos lhe concederão a capacidade de resistir à atracção dos desafios que, conhecendo-lhe de sobra o perfil evidenciado ao longo de quatro anos, inexoravelmente lhe hão-de dirigir, convencidos da utopia de tal mudança!...

Será utópico julgar Bruno de Carvalho incapaz de mudar?!...

Leoninamente,
Até à próxima

2 comentários:

  1. De: ANÍBAL CAEIRO

    Exmo. Snr.,

    Com os meus melhores cumprimentos, permita-me que lhe conte esta estória.

    {Início dos anos 70, Parque Nacional de Kafue, Zâmbia (antiga Rodésia do Norte). Eu e o meu grande amigo desses tempos, “Quico”, jovens adultos, aguardávamos pela chegada de um renomado caçador, médico-cirurgião em Angola que vinha em busca do último dos Big Five que lhe faltava na sua colecção e no seu enorme e formidável salão de caça. Iniciáticos, lá acompanhámos o exímio caçador na senda desse grandioso ungulado, uma espécie que ao tempo abundava em grandes manadas por todo o território. A história seria mais uma, idêntica a muitas narrativas sobre o fascínio que a África quente e selvagem exerce sobre o europeu, não fosse o imprevisto e extraordinário episódio que ocorreu nessa fantástica aventura.
    “Quico” e o médico indo à frente, caminhavam atentos pela picada quando ao abrir da curva se depararam a vinte metros com um imponente leão de grande juba côr de fogo, postado e anichado, exactamente no meio do caminho. Estacámos, electrizados por tamanha magnificência. O leão ergueu a sua enorme cabeça e imperturbável, rugiu, avançando vagarosamente, como que rastejando, arrastando as patas traseiras. Avançou mais uns metros, parando a curta distância, emitindo um rugido assustador como eu nunca tinha ouvido!
    Armas em riste, preparados para o que desse e viesse. O médico, com uma calma extraordinária, disse-nos: -“ ele não vai avançar mais!...”.
    A verdade é que foram momentos de grande tensão. Mário, um homem de um sangue frio incrível, olhou para nós e com um sorriso, exclamou calmamente: - “ele tem a coluna vertebral fracturada!”.
    O médico apontou ao leão pela derradeira vez, para o tiro de misericórdia, mas “Quico”, serenamente, com a sua mão esquerda baixou-lhe o cano da espingarda – “Dr., não pode fazê-lo! Avancemos para o búfalo e deixe que os guias se encarreguem do ritual e o enterrem à beira do caminho, onde o capim está sêco. Peço-lhe, Dr.!”
    Mário continuou, não proferindo mais nenhuma palavra até ao jantar, à noite, no acampamento. Depois, à beira da fogueira, entre um “curvoisier” e duas larachas, perguntou a “Quico” o porquê da sua atitude, da sua quase súplica. Afinal estávamos em África, em plena selva, onde a Natureza dita, mais do que nunca, a sua lei.
    - “Um leão tem de morrer com dignidade, a lutar! Sabe, Dr., eu sou do Sporting!}

    Na altura, “Quico” Vasconcellos e Sá era um jovem como eu..
    Um grande abraço, Quico!
    Fico feliz por saber que estás vivo e pujante!

    PS – Passaram décadas. Tempos fantásticos que vão e não voltam mais. Por um incrível acaso fui alertado por amigos para o facto de haver eventualmente por aqui um Vasconcellos e Sá do qual perdi o rasto há largos anos. Quico, se me leres, pergunta por mim no mesmo café-restaurante onde meninos e moços nos encontrávamos assiduamente com as nossas namoradas. Quero entregar-te o livro das minhas memórias de onde extraí este pedaço fabuloso da minha história passada em África e dar-te aquele abraço que não pude dar-te na altura em que deixei precipitadamente Lusaka. É só perguntares ao balcão ou ao gerente, por mim. Mais uma vez, um grande abraço!

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    1. Com uma gratidão quase igual ao amor que toda a minha vida dediquei ao "meu Sporting" e com os olhos rasos de água por uma emoção que muito dificilmente terei vivido desde que há quase 6 anos arranquei com este meu blog, permita-me caríssimo Aníbal Caeiro, que lhe envie num forte e leonino abraço, a minha sincera homenagem. Bem haja!...

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