segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

"Firmes como o betão e respeitar a inteligência de quem os lê"!...


Quem comprará um jogador ao Benfica por 30 ou 40 milhões?


«Não obstante a aparente naturalidade com que a eliminação do Benfica da Europa foi encarada, jamais seria expectável isto de ser a pior prestação portuguesa e o pior cabeça de série de sempre na fase de grupos da Liga dos Campeões, com zero pontos, 14 golos sofridos e um marcado.

Arriscaria que é vergonha maior o actual Benfica ter perdido por 5-0 em Basileia, com uma equipa suíça pouco mais do que arrumadinha, do que a equipa de 1999/2000 ter sido goleada por 7-0 em Vigo pelo Celta de Mostovoi, Karpin e McCarthy.

Dir-me-ão: «Isso já acabou, vira-se a página e passa-se à frente.»

Na verdade, não acabou. As conclusões sobre a prestação europeia do Benfica só serão devidamente tiradas no próximo relatório e contas.

Num grupo com um favorito e duas equipas acessíveis e até teoricamente mais fracas (Mourinho dixit) o Benfica não só deixou de encaixar seis milhões de euros pela passagem aos oitavos de final, como outro tanto pela soma de pontos.

Esses potenciais 12 milhões de euros são, porém, o menor dos rombos financeiros que o vexame na Europa indicia.

Ao contrário dos Big Five, os clubes portugueses têm na Europa, sobretudo na Liga dos Campeões, a sua grande montra para potenciar activos. Aliás, salvo excepções (encontrarão sempre algumas a confirmar a regra), chegar aos oitavos ou quartos da Champions vale bem mais em termos de valorização de jogadores do que vencer o campeonato por cá.

Tal como Porto e Sporting, o Benfica não escapa ao fado luso de ter de vender jogadores. Aliás, de Janeiro para cá vendeu Gonçalo Guedes, Ederson, Nélson Semedo, Lindelöf, Mitroglou… Tudo, excepto o grego, negócios iguais ou superiores a 30 milhões de euros.

Qual será então o gigante europeu que vai pagar 30 ou 40 milhões por um jogador do actual plantel do Benfica?

Que comprador cobiça activos por valores milionários naquela que foi a equipa com a pior prestação entre as 80 que estiveram nas fases de grupos das duas competições europeias?

Se a questão é simples, a possível resposta foi rápida. Surgiu na segunda-feira numa chamada de primeira página do jornal mais vendido do país:

«Krovinovic já vale 30 milhões»

Valerá?

O que se percebe da notícia é que a mensagem é passada pela parte interessada e amplificada pela comunicação social. O alvo não é mal escolhido, diga-se, até porque o médio croata nem sequer tem associado o lastro da negra campanha europeia (não foi inscrito).

Entendamo-nos: acompanho Krovinovic desde que ele começou a dar os primeiros pontapés na bola no Rio Ave. Essa é uma das vantagens de ver semana após semana jogos ao vivo e não só os três grandes pela TV. Há cerca de um ano e meio até lhe fiz uma pequena entrevista a propósito do Portugal-Croácia do Euro 2016.

«Krovimodric» ou «Krackinovic», como agora começam a chamar-lhe, é um jogador talentoso, sem dúvida. Esta reflexão nem tem que ver particularmente com o seu valor. Tem sim com o facto de o exercício do jornalismo ter de cumprir regras básicas de verosimilhança. Caso contrário, tornamo-nos quase em promotores comerciais, capazes de tornar primeiras páginas e manchetes numa espécie de folhetos promocionais com negócios de ocasião.

Ora, Krovinovic ganhou a titularidade no Rio Ave em Fevereiro deste ano (à 21.ª jornada de 2016/17, para ser preciso), foi transferido em Junho por 3,5 milhões de euros e só há um mês passou a ser opção para o onze inicial do Benfica.

Assim sendo: como é que uma eliminatória da Taça de Portugal e quatro jornadas seguidas do campeonato a titular correspondem a uma valorização de quase mil por cento até aos 30 milhões de euros?

Num tempo de guerrilha mediática no futebol português, com jornalistas acusados dia sim dia não de serem peças ao serviço de uma qualquer máquina de propaganda, cabe-nos escorar cada trabalho nos sólidos pilares da credibilidade, para que não sejamos todos, por atacado, levados pela corrente.

O mais elementar, para mim, é firme como betão: respeitar a inteligência de quem nos lê.

Só isso. E já não é pouco.»
(Sérgio Pires, Geraldinos & Arquibaldos XLIV, in MaisFutebol em 13 Dez, 10:30)


Esta crónica de opinião do jornalista Sérgio Pires, foi publicada no site MaisFutebol há quase três semanas. Na ocasião dediquei-lhe particular atenção, na justa medida em que, pelo menos por três razões importantes, me identifiquei completamente com o pensamento do autor: em primeiro lugar porque a tese que defende me pareceu tremendamente sólida; em segundo lugar por me parecer que o autor não pertenceria ou não pertencerá mesmo, àquele lote de jornalistas fortemente maioritário da nossa CS que, "por atacado se deixa levar pela corrente"; finalmente e quiçá "pour cause", por quase poder jurar a pés juntos que o Benfica andará muito longe dos seus afectos clubísticos. 

Mas a grande tema central da crónica, morreria para mim por aí, não fora aparecer hoje de supetão plantada nos três jornais desportivos, a notícia da iminência da transferência de Álex Grimaldo do Benfica para o Nápoles, por uma qualquer obscenidade a rondar os 30 MILHÕES DE EUROS!...

Também para mim e parafraseando Sérgio Pires, os jornais A Bola, Record e O Jogo, deveriam ser... 

"Firmes como o betão e respeitar a inteligência de quem os lê"!...

Leoninamente,
Até à próxima

6 comentários:

  1. E como quem os lê, 'grosso modo' e salvo honrosas excepções, não prima muito pela dita,... , da minha parte vão continuar sem alterar os meus neuróticos... até ao dia em que mais Sérgios Pires, até ver, entrem nas redações...

    UM EXCELENTE E PROFÍCUO ANO DE 2018... particularmente para LEONINAMENTE e seu mentor e já agora para TODO O UNIVERSO LEONINO

    SAUDAÇÕES LEONINAS

    ResponderEliminar
  2. Pois deviam respeitar, lá isso deviam, mas... uma boa gorjeta, a aconchegar o bolso, não é muito mais reconfortante?

    ResponderEliminar
  3. Como benfiquista, gosto de frequentar blogues onde constantemente e de forma obcecada se fala e pensa sobre o Benfica. Não há outro Clube em Portugal. Um bom ano de 2018.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Bem aventurados os cegos e os pobres de espírito que jamais compreenderão as razões pelas quais a gente de bem os aponta como o centro do império da mistificação e da subversão dos valores que trouxeram a Humanidade até aqui! Deles será o reino da felicidade menor que julgam ao seu alcance!...

      Contudo, mesmo na sua pequenez, também merecerão as graças de um bom ano de 2018: o Sol quando nasce é para todos!...

      Eliminar
    2. Os adeptos dos regimes totalitários e do pensamento único esboçaram um sorriso com esta intervenção. Está aqui um George Orwell em potência.

      Eliminar

PUBLICIDADE