segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Não brinquemos na hora da verdade!...


A aclimatização de Keiser


«A equipa que mais amargou no conjunto da "final four" foi a que acabou por levar a Taça da Liga para casa. Tanto frente ao Sp. Braga como ao FC Porto, o Sporting demonstrou que, também no futebol, os grandes feitos podem ser processados não apenas em função das virtudes dos intérpretes, da sua força e da predominância que são capazes de impor ao adversário, mas também em resultado da paciência e da perseverança – sendo que este género de aglutinação é sempre mais facilmente recompensado numa prova a eliminar, onde não há a obrigação da constância que um campeonato normalmente exige. 

Mas esta "final four" serviu principalmente para confirmar que Marcel Keizer é bem menos lírico do que (supostamente) anunciavam as suas auroras futebolísticas. O holandês não precisou de muito tempo no nosso país para perceber que o Sporting, nesta fase da sua existência, tem de lutar como um leão esfaimado e tentar vencer com a subtileza e a ardileza de um felino doméstico. O momento em que o holandês terá percebido a necessidade de um ajuste terá sido em Tondela, onde, depois de Guimarães, sofreu o segundo desaire. De resto, os primeiros sinais desta aclimatização já tinham sido notórios, em Alvalade, frente ao FC Porto, num clássico cinzento em que Keizer respeitou uma máxima bem lusitana: se a vitória se apresentar como (quase) impossível, o melhor é mesmo lutar pelo empate. Claro que foi (justificadamente) acusado de ter abdicado da matriz de jogo charmosa e arrebatadora com que o Sporting tinha cativado os adeptos nos primeiros jogos com o holandês. 

A verdade é que, além de ter sobrevivido às mais duras penas, a equipa leonina acabou por sair animicamente reforçada daquele duelo. E foi esse suplemento de alma que lhe permitiu repetir o expediente estratégico no duplo confronto travado nos últimos dias em Braga. Mas agora com outra confiança e destreza, até porque Keizer soube retirar alguns excessos que haviam tornado a equipa demasiado poltrona. Conhecido como o mágico de Westwool depois de ter ganho, nos anos 60 e 70, dez campeonatos norte-americanos de basquetebol, John Wooden teve uma das suas célebres tiradas quando disse que um "treinador é alguém que pode corrigir sem causar ressentimentos". De facto, o Sporting descontinuou o seu molde futebolístico (ao qual se espera que regresse logo que se sinta mais robusto ou perante adversários menos dotados), mas as emendas de Keizer tiveram, pelo menos, o mérito de tornar menos melindroso o novo jogar da equipa leonina. Frente ao Braga já se viu um bloco menos afundado e, na final com o FC Porto, o Sporting teve 45 minutos iniciais em que pressionou alto, obrigando o FC Porto a denotar raras dificuldades nas transições defensivas e a errar mais do que é hábito. 

O Sporting fez, durante aquele período, um exercício muito profissional, mas pareceu soçobrar fisicamente na segunda parte, o que acaba por ser natural numa equipa que tem menos soluções e menos qualidade no plantel do que qualquer um dos outros três concorrentes (veremos como param as modas no final do período de transferências). 

O FC Porto tardou a chegar ao jogo, mas depois jogou com critério e ofício, embora sem nunca atingir a capacidade demolidora que lhe vimos noutros momentos da época (esta invariabilidade talvez seja mesmo a principal diferença relativamente à equipa dizimadora de há um ano). Continua a respeitar os padrões impostos por Sérgio Conceição, assentes numa ideia de jogo que é praticamente única no futebol português e que parece beber alguma coisa do "gegenpressing" alemão (embora frente ao Benfica tenha acabado por levar vantagem quando Conceição percebeu que era chegada a hora de desacelerar e meter mais cérebro na organização).

Acabou por voltar a ser a equipa mais consistente e com mais soluções na "final four", principalmente se levarmos em conta o futebol frenético e revigorante oferecido na primeira meia-final. Mas os portistas pagaram erros inusuais (como o penálti de Óliver sobre Diaby). Imperfeições que, de resto, já tinham sido visíveis nesse espectáculo raro e empolgante que resultou do duelo com o Benfica. São desacertos ainda mais difíceis de neutralizar numa prova a eliminar. E que se pagam caro numa equipa que até parece mentalmente forte, mas que, na hora dos penáltis, tem já um histórico negativo considerável. Como se o medo de perder lhe tirasse a vontade de ganhar.

A arcaica cultura do azedume

O FC Porto saiu de Braga sem a taça e com o rótulo de falta de desportivismo, em resultado de um acumulado de situações. Alguns protagonistas, como Sérgio Conceição e Brahimi, não respeitaram a guarda de honra formada pelos jogadores do Sporting; o treinador adjunto Diamantino Figueiredo reagiu aos insultos com uma inadmissível tentativa de agressão em que usou a medalha como arma de arremesso; e Conceição terá dado ordem de recolha aos balneários ao seu staff antes mesmo de a taça ser entregue ao Sporting. Algumas destas (e outras) situações foram potenciadas por uma organização da liga de clubes demasiado cabotina (e isso nota-se até na forma como a calendarização do campeonato foi subvertida, como se percebe pela forma estapafúrdia como está distribuída a 19ª jornada). Fruto disso, os protagonistas tiveram de escalar as ingremes escadas do mais inóspito estádio português para uma cerimónia à boa moda do Estado Novo. E não foi sequer levado suficientemente em conta o facto de os jogadores e treinadores portistas terem de lidar com os humores dos adeptos do Sporting, que ocupavam aquele lado das bancadas. Mas nada disto justifica o que acabou por suceder. A minha dúvida é se os comportamentos desviantes resultaram mais da falta de "fair play" ou da cultura quase secular que vinga no FC Porto, onde os principais dirigentes sempre procuram vender a ideia de que o sucesso está intimamente relacionado com o azedume e o mau perder. Estão obviamente enganados e os jogadores e o próprio Sérgio Conceição (que tão bem havia estado no abraço solidário a Keizer) não se deviam deixar contaminar. Porque não foi à custa desta cultura primitiva e arcaica que o FC Porto conseguiu por termo à longa travessia repleta de desaires. Conseguiu-o à custa do trabalho competente e detalhista de um treinador que treina e decide bem. E que aceitou o que outros recusaram. E aos "iluminados" que tentam vender a ideia contrária, o treinador devia remetê-los para uma frase de Muhammed Ali: "Aquele que vê o mundo aos 50 anos da mesma forma que o via aos 20, desperdiçou 30 anos de sua vida"…»
(Bruno Prata, Ludopédio, in Record)

Só terá faltado a Bruno Prata enfatizar o défice das 24 horas de descanso do Sporting! Poderá parecer factor irrelevante, mas...

Não brinquemos na hora da verdade!...

Leoninamente,
Até à próxima

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