Infecções a menos podem ser um problema
Aquilo que mais me agrada na estratégia adoptada pelos suecos é precisamente aquilo que mais me assusta em Portugal – que tenhamos exagerado no distanciamento social nesta primeira fase, e que o preço do medo que se instalou nos obrigue a pagar no futuro, com juros, o sucesso que estamos a ter no presente.
«Quando se deixa o coronavírus à solta e se reage demasiado tarde, acontece o que já todos vimos acontecer em Espanha ou no norte de Itália – a contaminação dispara, os doentes acumulam-se nos cuidados intensivos e o sistema nacional de saúde entra em colapso. Mas quando um país inteiro se fecha em casa e as contaminações quase desaparecem, graças à eficácia das medidas de contenção, as consequências no curto prazo são bastante boas (aconteceu em Portugal), mas é perfeitamente possível que no médio prazo sejam bastante más: a imunidade de grupo atrasa-se, a esmagadora maioria da população continua sem contactar com o vírus e a probabilidade de chegarmos ao Inverno e sermos obrigados a voltar outra vez para casa é assustadoramente alta.
Infecções a mais são uma desgraça. Infecções a menos são um problema. E manter as infecções no nível certo é uma tarefa ciclópica, até pelo facto de as consequências das medidas que são agora tomadas só virem a ser conhecidas duas semanas mais tarde. Alterações mínimas, de meras décimas, no chamado R0 (o número médio de contágios causados por cada pessoa infectada) provocam alterações gigantescas, de dezenas de milhares de infecções, na população de um país. É um trabalho que não se deseja a ninguém.
Ainda assim, não há qualquer alternativa ao levantamento da quarentena. É preciso reabrir e ver como é que corre, assumindo corajosamente que vamos entrar numa dança perigosa com o vírus. É arriscado? Sim. Mas é também inevitável, sobretudo quando a taxa de letalidade da covid-19 permanece desconhecida. Já a taxa de letalidade da economia, não. Esqueçam os lay-offs e os cortes nos salários – estamos a falar de milhões e milhões de pessoas acabarem sem nada. Todos os dias vemos passar à frente dos olhos notícias de países com colapsos do PIB de duas casas decimais. O planeta é hoje um novelo de fios invisíveis. O encerramento das lojas de roupa na Europa irá em breve provocar fome na Ásia. Consta por aí que o capitalismo é horrível – a não ser quando ele deixa de funcionar, como se está a ver. Quantos anos iremos nós regredir após a pandemia da covid-19?
Nunca saberemos ao certo como dosear de forma perfeita a distensão e a contracção das medidas de confinamento, e não acho sequer que isso possa ser exigido às autoridades de saúde e a quem nos governa. Mas a pressão social não deve ir no sentido de continuarmos todos em posição fetal no sofá da sala, mas sim na busca da máxima abertura em função da capacidade hospitalar disponível. Há que reforçar essa capacidade e aproveitá-la bem. Níveis demasiados baixos de ocupação dos chamados “covidários” são excelentes na perspectiva de quem considera a saúde o bem supremo, mas, por mais insensível que isto possa parecer, não o são necessariamente na perspectiva do país. E não o são, com certeza, se tais níveis de ocupação forem apenas sinónimo de um contacto demasiado baixo com o vírus por parte da população activa.
Não há vacina, não se sabe quando haverá, e não podemos contar com ela para decidir o que fazer nos próximos meses. Mais tarde ou mais cedo, temos de supor que a maior parte de nós terá mesmo de contactar com o vírus. Aquilo que mais me agrada na estratégia dos suecos é precisamente aquilo que mais me assusta em Portugal – que tenhamos exagerado no distanciamento social nesta primeira fase, e que o preço do medo que se instalou nos obrigue a pagar no futuro, com juros, o sucesso que estamos a ter no presente.»
(João Miguel Tavares, Opinião Coronavírus, in Público, hoje às 00:50)
Acabada a leitura desta nova crónica de João Miguel Tavares, tendencialmente polémica como costuma ser seu timbre, dei-me ao trabalho de construir um quadro comparativo, entre os países cujos resultados alcançados na luta contra a covid-19 entendi como mais significativos, puxando naturalmente 'a brasa para a minha sardinha europeia'. Deixo-o aqui:

Face a todos estes números, torna-se-me demasiado difícil alinhar com JMT no 'fetiche' em que a estratégia sueca parece envolvê-lo: a ciência ainda se debate com inúmeras reservas sobre a pretensa 'imunidade de grupo' que terá estado nas cogitações dos políticos suecos, os números de infectados e mortos apontam claramente em sentido contrário e sobre a economia do país a oposição sueca, ao que se vai sabendo, terá uma posição diametralmente oposta, defendendo que afinal e ao que parece, como costuma dizer o nosso sábio povo," não estará a dar a mecha para o sebo"!...
Posto isso, se quisermos encontrar exemplos melhores, certamente que a Áustria, a Rússia e, obviamente Portugal, estarão mais facilmente entre os candidatos, todos eles em posição muito mais favorável que a Suécia. No caso particular de Portugal, cuja estratégia tanto assustará o cronista, para a mesma população, apresenta afinal quase mais cinco mil infectados - com eventual maior imunidade de grupo!-, sendo que a mortalidade será quase três vezes inferior...
Quando, mais tarde ou mais cedo, os povos se conseguirem libertar das grilhetas desta 'terrível besta', decerto que não deixarão de aparecer os que adoram fazer prognósticos no final do jogo, com o chavão do costume: "em bem que avisei"!...
Andar agora com as algemas no bolso, pronto para prender quem nos vai governando, tenha ou não tenha cão e pretender ter "Sol na eira e chuva no nabal", será...
Algo bem pior que este 'danado vírus!...
Leoninamente,
Até à próxima