Humberto Delgado, o general Sem Medo! A sua derrota nas eleições de 1958, em que afrontou o fascismo, personlizado pelo candidato do regime, Américo Thomaz, ficou conhecida como a maior fraude eleitoral de sempre neste país de brandos costumes. Mas as sementes germinaram durante longos 16 anos e nem o seu assassinato, às mãos dos esbirros da PIDE, a polícia política fascista, em 1965, impediu a madrugada redentora de 25 de Abril de 1974, ainda ontem celebrada com orgulho e convicção no Largo do Carmo, pelo povo anónimo, no teatro principal da queda do regime fascista.
Bruno de Carvalho, nunca foi militar, embora na sua ascendência brilhe a estrela castrense, também frontal e determinada, que foi o almirante Pinheiro de Azevedo, seu tio-avô. Mas o medo também nunca fez parte dos seus predicados, substituído antes por uma determinação e vontade ímpares. Mas como o general Sem Medo, também foi vítima da maior fraude eleitoral de que haverá memória em todos as agremiações desportivas portuguesas.
Venho acompanhando com manifesto interesse, as crónicas, a meu ver intelectualmente honestas, que sob o título, HISTÓRIA - A Revolução no SCP, José Eduardo, ex-atleta e insuspeito sportinguista, vem dando à estampa no jornal "A Bola", sobre todo o processo que, desde a demissão do presidente Bettencourt, foi vivido pela centenária instituição que se orgulha de ser. o SPORTING CLUBE DE PORTUGAL!
E enquanto lia o XVI Capítulo do doloroso processo narrado por José Eduardo, com que Godinho Lopes rematou a "dinastia roquettista", aqui declaro a minha incapacidade para rejeitar uma simbólica analogia entre o terrível regime fascista, Humberto Delgado, PIDE/DGS e o 25 de Abril de 1974, e o glorioso SPORTING CLUBE DE PORTUGAL. Ressalvadas, natural e respeitosamente, as devidas diferenças, haverá a meu ver uma linha condutora comum, pese embora o facto que reconhecerei sem pruridos e animosidades estéreis, que nem todo o grande e fantástico universo sportinguista comungará do meu prisma de observação. Eis o capítulo integral, com que José Eduardo hoje nos presenteou:
"Com algum distanciamento cumprimentámo-nos. Entrámos no elevador, carrego no botão do piso 0 e fico admirado quando Godinho, carrega no 2, já que era um piso que estava interdito, fechado. Abrem-se as portas, esperam-no uma funcionária e o segurança que possui as chaves para abrir as portas. Fico intrigado. Qual o motivo para se dirigir a um espaço fechado aos olhos de todos? Com quem se iria encontrar? E para quê? Durante meses, anos, transportei esta 'pedra no sapato'. Até que muito recentemente fez-se luz...
Confesso que, na altura, estranhei, mas a excitação e os acontecimentos posteriores, entorpeceram a atenção que devia ter prestado a tão insólito acontecimento.
Os resultados demoram. Há desordem no piso 0. Rebentam petardos. Ameaças de invasão. As televisões em directo começam a anunciar os vencedores.
É já do conhecimento geral. Bruno ganhou e Rogério Alves é o Presidente da AG. Distribuem-se abraços, Vencedores e vencidos dão entrevistas. De repente o golpe. Afinal os vencedores são Godinho e Barroso! É o caos. Oa candidatos estão em reunião a meio do caminho. Diz quem viu, que Godinho estava lívido.
A desordem é total. Pancadaria. Quando Godinho aparece e se dirige para o palanque é a revolta total. Insultado, vaiado, agredido, é obrigado a voltar para trás. Estava a ser escrita uma das páginas mais negras do SCP...".
Vou aguardar com singulares expectativa e muita curiosidade, o XVII Capítulo da história de José Eduardo. Porque acredito que do episódio que colocou "a pedra no sapato" de José Eduardo, como ele próprio deixa antever, virá a luz que retirará da penumbra em que ainda hoje permanecem, outras histórias sobre "uma das páginas mais negras do SCP"!
Mas não termino sem deixar também por aqui, um pequeno excerto do corpo principal do artigo de José Eduardo, hoje publicado e que recomendo, sob o título "O Porto (cidade/portuenses) é uma lição", que merecerá por parte de muitos daqueles que por lá aparecem implicitamente retratados, serena reflexão, e em que o autor se refere ao SCP:
"Bruno omnipresente, em Bruxelas, nos Açores, fotos, autógrafos, almoços, jantares, reuniões. Tudo muito. Demasiado? Cuidado!".
Desejaria não me sentir tão identificado com o alerta de José Eduardo. Mas a minha consciência obriga-me a subscrevê-lo.
Leoninamente,
Até à próxima