DESCER À TERRA
«Blerim Dzemaili, médio da seleção suíça, disse, antes do jogo de terça-feira, que não tinha medo de Portugal. Que, em França, "Portugal foi bafejado pela sorte". Irritante, não é? Porque é verdade. Viajei depois do Europeu. Mesmo onde não se liga peva a futebol toda agente sabe que fomos campeões. Mas onde se liga alguma coisa sabem como o conseguimos. As pessoas têm olhos na cara. Uma equipa não passa a ser excelente e um treinador não passa a ser brilhante quando ganha um Europeu. Ou é ou não é. E a verdade, por mais que ela doa, é que tivemos muita sorte em França. Sorte e humildade.
Posso estar a ser injusto, mas pareceu-me que Portugal acusou o toque e quis mostrar que os suíços não tinham razão. Que a equipa joga mesmo bem e bonito. Apesar dos bons primeiros 20 minutos, não joga. Portugal não teve apenas sorte em França. Sabia da sua fraqueza e jogou tendo sempre em conta as suas limitações. Na Suíça, Portugal esqueceu-se disso. Imaginou que Éder era um marcador, que Fernando Santos era um grande treinador e que tinha uma grande equipa. Correu mal. Porque Éder continua a ser o mesmo Éder de antes de Paris, Fernando Santos continua a não ser fora de série e nós fomos campeões da Europa mas não somos os melhores da Europa. E o mérito está em termos sido campeões sem sermos os melhores. Desde que não nos esqueçamos como o fizemos. Se nos esquecermos, outras equipas pragmáticas se encarregarão de nos recordar. Bastou ouvir os comentários de Fernando Santos, no final do jogo, para perceber o que aconteceu: parecia um treinador de uma equipa derrotada por Portugal no Europeu. Não é que a camisola de campeão não seja nossa por direito. Só temos de nos lembrar que nos está um pouco larga.»
(Daniel Oliveira, Verde na Bola, in Record)
Obviamente que, como Daniel Oliveira, qualquer analista sério e isento chegará facilmente às concusões deste "rei vai nu" que a sua crónica encerra, nomeadamente a conclusão final de que a "camisola de campeão europeu nos estará um pouco larga"!...
E o descoroçoante insucesso perante a Suiça terá ficado a dever-se, mais do que à flagrante, endémica, tradicional e identitária perda da humildade que esteve na base do êxito e fez campeões europeus os nossos jogadores, ao regresso de Fernando Santos às más práticas que por pouco não o afastaram, durante a paupérrima fase de grupos, dos oitavos de final da competição. O seleccionador nacional parece ter esquecido com a medalha de comendador, todos os ensinamentos que trouxe de França.
Fernando Santos em terras helvéticas mais pareceu um pagador de promessas: ao dar a titularidade a Éder em prejuízo de uma jovem promessa motivada e galvanizada por um arranque fulgurante de época em forma fabulosa; ao pretender recuperar o nosso maior flop de França, João Moutinho; ao ceder à tentação de contribuir ao "lancinante" apelo para que Bernardo Silva rapidamente vista de branco; ao permitir que num colectivo coeso e solidário se instalasse o virus da suspeita, da ingratidão e, consequentemente, de toda uma motivação que em França nos havia conduzido à medalha de ouro!...
Em resumo, Fernando Santos esqueceu França, voltou a ceder aos "lobbies", não foi capaz de preservar a unidade e solidariedade graníticas que havia conseguido construir no europeu e voltou a não saber resistir a uma antes provada, eterna e porventura narcísica tentação de inventar, num pouco inteligente e absolutamente escusado processo de auto-afirmação.
Vencer, vencer e vencer, proclamou! E os outros, nomeadamente os suíços, estarão dispostos a aceitar perder, perder e perder, agora que tomaram as rédeas da qualificação?!...
Quando se desafia a sorte, os deuses da fortuna revoltam-se e nem a fé nos salva!...
Leoninamente,
Até à próxima